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SXSW 2023 e a Era da Convergência

por:

Caroline Verre

Caroline Verre

Confira os 10 principais takeaways do SXSW 2023!

Artigo escrito por Poliana Abreu, Head da SingularityU Brazil e Diretora de Conteúdo da HSM.

O South by Southwest 2023 – principal festival de inovação e criatividade do mundo que acontece anualmente em Austin, no Texas – acabou, mas o seu “efeito colateral” vai demorar a passar. Foram dias intensos de informação e muita conexão.

Arrisco a dizer que o tema “transversal” do evento foi “a conexão entre pessoas e máquinas”. Uma aparente ambiguidade, mas que, no fundo, retrata a realidade como ela é: complexa, dual, complementar e convergente.

O evento por si só é sobre convergência. Música, cinema, inovação, negócios. Foram dias de muitas reflexões, mostrando o presente e visões de futuro catastróficas, realistas e otimistas.

Ficou claro que vivemos a era do “e” e não do “ou”. É sobre humanos e máquinas; sobre o futuro e o resgate da ancestralidade; sobre inteligência artificial generativa e relações humanas verdadeiras; sobre crescer exponencialmente e regenerar o meio ambiente. Não é apenas sobre inteligência artificial, computação quântica, realidade virtual ou blockchain. A força e as oportunidades de mudança estão na convergência entre essas e tantas outras tecnologias exponenciais e não numa aposta isolada.  Esta complexidade clama por novas lideranças ambidestras e regenerativas.

Abaixo, elegi os 10 principais takeaways do SXSW que reforçam que estamos na era da convergência:

1- “A Internet, como conhecemos, está morta”

A frase acima foi dita por Amy Webb, CEO do Future Today Institute e um dos nomes mais aguardados do evento. Amy apresentou o Tech Trend Report, um relatório com 666 tendências e, dessas, ela escolheu 35 para mergulhar o seu conteúdo.

Para a futurista, precisamos de foco. Negócios e pessoas precisam analisar tendências convergentes e o momento atual da inteligência artificial para definir se teremos um futuro catastrófico ou humanizado.

As IAs generativas vão se desenvolver em velocidade muito além da imaginada nos próximos anos. A convergência entre Web3, Computação em Nuvem e Inteligência Artificial desencadeará uma reformulação dos negócios e da sociedade. Para Webb, estamos entrando no que ela chama de “AIOSMOSIS”, a era em que a IA tem interação com absolutamente tudo ao redor, puxando informações sobre tudo e todos.

2- Nova Relação Homem-Máquina e a “Destruição Criativa”: Open AI & ChatGPT e os Organoides

Por um lado, a “destruição criativa” da Inteligência Artificial (ChatGPT, entre outras) causa temor em muitos profissionais. Por outro, a pesquisa com organoides avança para buscar a cura de doenças. Amy Webb explicou:

O lado otimista tem a IA centrada nas pessoas e gerenciamento de dados voltado para o bem comum, em uma configuração transparente e descentralizada, com o compartilhamento de dados opcional.

Já o pessimista é onde nossas pegadas digitais são constantemente transformadas em modelos, levando a curadoria e recomendações agressivas, em vez da verdadeira escolha do usuário. Nele, somos cercados por informações, e elas nos impedirão de obter o que realmente buscamos.

Destaque extra para Alysson Muotri, diretor do programa de células-tronco do Instituto de Medicina Genômica, da Universidade de San Diego, que está criando “Organoides”, estruturas tridimensionais criadas em laboratório para imitar características e funções de um órgão ou tecido específico, para testar medicamentos e efeitos colaterais.

3- O Futuro é Coletivo

“Não basta dizermos um monte de coisas inteligentes. Temos que recuar e trazer outras pessoas para mesa, é sobre como discutir o futuro juntos”, Ian Beacraft

A inteligência artificial será de grande valor para muitas indústrias, mas precisará de serem humanos preparados para lidar com elas. O grande salto tecnológico será a junção da inteligência artificial com a computação quântica. Para Whurley, fundador e CEO of Strangeworks, ações básicas como otimizações e agilidade na tomada de decisão dividirão espaço com grandes conquistas como, por exemplo, uma verdadeira disrupção econômica e melhor gerenciamento do sistema bancário e financeiro.

Greg Brockman, presidente co-fundador da Open AI, reforçou que é preciso “colocar todos na mesa” para que a inteligência artificial seja usada de forma ética e responsável. É fundamental que a sociedade se adapte e que os formuladores de políticas publicas estejam envolvidos nas conversas. Regulação é um tema coletivo.

Destaque também para as 5 mulheres com papéis relevantes na NASA. Uma junção de mulheres e pessoas de todo o mundo, trabalhando em grupo, e garantindo as mais impressionantes e complexas imagens telescópicas da história do mundo. Isso envolve o trabalho de mais de 20 mil pessoas, em 14 países, e 29 estados ao redor do mundo. “É um trabalho em grupo com um time impressionante, onde não importa a nacionalidade”, afirma Macarena Garcia Marin.

4 – Realidade virtual e imersiva como ferramenta para empatia

O que mais chamou a atenção foi a quantidade de experiências voltadas ao sentimento de empatia.

Uma delas foi a “Body of Mine”, que coloca o usuário no corpo de outro gênero para uma experiência que combina rastreamento de corpo, rosto e olhos para trazer a sensação de uma pessoa trans ao estar num corpo que não corresponde ao seu gênero.

Além desta, a mais emocionante foi a experiência “les pieds em haut”. Criada por duas mães de crianças autistas, a experiência reproduz no usuário as sensações de uma criança com autismo (vídeo demonstrativo da experiência está disponível aqui).

Além de todas as aplicabilidades da realidade virtual para educação, treinamento, entretenimento, saí das experiências do SXW, esperançosa que existe um caminho para ensinar e viver a empatia.

5 – A Cura pela Ancestralidade

Muitos painéis trouxeram o resgate das sabedorias ancestrais para endereçar desafios modernos como a saúde mental, por exemplo.

Paul Stamets, micologista, empreendedor e escritor, é um dos pioneiros nas pesquisas sobre o uso de cogumelos para fins medicinais e reforçou: “esse conhecimento é apenas uma continuação do que os povos indígenas falam há milhares de anos”.

Statmets criou um aplicativo que reúne pessoas que utilizam microdoses de cogumelos psicotrópicos para tratamentos como alcoolismo e depressão. A ideia, segundo ele, é levantar dados para “provar que os indígenas sempre estiveram certos”.

Além disso, algumas sessões mostraram o poder das músicas e mantras ancestrais como ferramenta para a cura. Artistas, facilitadores, cientistas e até um monge Dj, mostraram que a música, desde os tempos mais remotos, tem o potencial de ser um grande aliado nos tratamentos de saúde mental.

6- Psicodélicos como aposta para os tratamentos na área da Saúde Mental 

O festival teve uma trilha de conteúdo exclusiva sobre o mercado global de psicodélicos para tratamentos de saúde mental.

Diversas startups que trabalham dentro dos limites legais dos psicodélicos, assim como diversos pesquisadores, mostraram o potencial de algumas substâncias como uso terapêutico para depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

O tamanho do mercado chama atenção: ele já movimentou US$ 4 bilhões em 2021 e tem potencial de chegar a US$ 7,58 bilhões até 2026.

Para Deepak Chopra,  autor indiano, estudioso da medicina alternativa – e que ganhou uma importante fama após levantar teses afirmando que as pessoas podem, sim, atingir a saúde perfeita se cuidarem de seu corpo de forma holística, incluindo matéria e energia – existem pessoas que já não respondem aos tratamentos da medicina tradicional, inclusive porque a maioria sente reações adversas.

Chopra acredita na necessidade da humanidade se concentrar no trabalho interno para buscar a cura. Para ele, é por meio da conexão entre terapia com psicodélicos e consciência que vamos encontrar um caminho que faça sentido para aqueles que buscam qualidade em saúde mental. 

7- Upskilling como imperativo

Em algum grau, todas as palestras e painéis falaram sobre necessidade do aprendizado ao longo da vida para navegarmos num mercado que demanda profissionais generalistas e criativos.

Existe uma urgência de mudarmos mindsets e comportamentos para estarmos preparados para a reinvenção. Precisamos todos, sem exceção, de upskilling – uma reciclagem completa de aprendizados e novas competências.

Tendo isso em mente, Tim Ferris, autor de best-sellers e conhecido como um verdadeiro fenômeno por ter cerca de 1 bilhão de downloads e muitos seguidores, falou sobre a importância de se investir em oportunidades que te abram novas portas e possibilidades de aprendizado.

8- Humanidade como principal Stakeholder

Tanto nos debates sobre ética e limites da tecnologia, como em conversas sobre sustentabilidade e negócios regenerativos. A mensagem foi muito clara:  o principal stakeholder deverá ser sempre a humanidade.

Para Greg Brockman, cofundador e presidente da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, a ferramenta só é considerada um “killer app”, pois é uma interface simples e acessível, que democratizou o acesso à inteligência artificial.

Segundo ele, a humanidade é o stakeholder mais importante quando se trata de inteligência artificial. E medir o impacto da tecnologia na sociedade é crucial para garantir que ela seja usada de forma benéfica. O principal erro que pode ocorrer é, justamente, não entender os humanos.

Para o futurista Rohit Bhargava, “Pessoas que entendem de pessoas, sempre ganham”. Tim Ferris, deixou claro que ao escolher investir num determinado projeto, ele antes de tudo, “escolhe pessoas”.

9 – “Perdemos o direito de sermos pessimistas”  

Esta frase, dita por Ryan Gallet, CEO da Patagonia, refere-se ao contexto da crise climática. Estamos diante de um cenário que não cabe falarmos de preservação e, sim, de regeneração. Regeneração dos ecossistemas naturais, dos negócios e das pessoas. Não temos tempo (e nem direito!) de sermos pessimistas. É necessário agir!

A mesma necessidade de otimismo foi trazida por outros speakers, sob a ótica da evolução exponencial tecnológica.

O olhar sob o otimismo, inclusive, foi a temática de abertura do SXSW. Na fala de Simran Jeet Singh, diretor executivo no programa de Religião e Sociedade do Aspen Institute e autor do bestseller “The Light we Give: How Sikh Wisdom Can Transform Your Life”:

“Luta e fuga são as duas respostas mais naturais, mas elas não nos dão a satisfação que precisamos. Na nossa tradição temos o “chardi kala”, que é o otimismo eterno. Não é escapismo, não é positividade tóxica. É sobre reconhecer os desafios pelo que eles são, e encará-los com os nossos valores. É sobre encontrar a luz dentro desses momentos”.

10 – Resgate das relações verdadeiras

Trazer consciência para o fato que estamos cada vez mais conectados e sozinhos. Segundo Esther Perrel, estamos o tempo todo olhando para o celular, desconectados do presente, fingindo que ouvimos o outro.

De acordo com a psicoterapeuta Esther Perrel, inevitavelmente, a tecnologia afeta as verdadeiras relações. “Por melhor que for a tecnologia, a melhor versão virtual de uma pessoa não superará a pessoa em si. A virtual pode estar disponível 24/7 e responder tudo que você perguntar, mas ela não levará em consideração suas novas experiências e sentimentos que mudam a cada dia. Estamos em constante mudança e isso é a maravilha do ser humano real”.

A psicoterapeuta entende que o foco atual dos seres humanos é o de tentar se livrar de grandes (e pequenos também) desconfortos e que isso, de fato, está facilitando a vida das pessoas, mas, ao mesmo tempo, ela acredita que isso deixa as pessoas despreparadas para as inconveniências cotidianas.

Além disso, para Josh D’Amaro, CEO da Disney, apenas juntas, de verdade, as pessoas conseguem criar uma profunda conexão entre elas. Para Josh, “ver o mundo acompanhado é sempre melhor do que sozinho”.

No fim, esta semana foi um chamado para a consciência. É necessário ter muita informação e clareza para navegar num mundo repleto de oportunidades, mas também de muita responsabilidade.

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