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A resiliência da empresa familiar em tempos de crise

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[vc_row][vc_column][vc_column_text]Escrito por Mary Nicoliello, diretora responsável pela área de governança para empresas de controle familiar na PwC Brasil.

No I Ching, clássico livro da sabedoria milenar chinesa, a água é ao mesmo tempo símbolo de perigo e de resiliência. Em um desfiladeiro, ensina o oráculo chinês, “a água prossegue fluindo e vai preenchendo todas as depressões que encontra. Não vacila ante nenhuma passagem perigosa, não retrocede ante nenhuma queda, e nada a faz perder sua natureza essencial”.

Resiliência é exatamente essa capacidade de se adaptar sem resistência nem medo dos riscos. Em um cenário de pressões e mudanças permanentes, é ela que nos torna flexíveis para promover as transformações necessárias e alcançar um novo estado de equilíbrio.

Essa qualidade marca também a história da maioria das empresas familiares. Sua trajetória geralmente começa com um fundador que, com trabalho duro e determinação, construiu negócios promissores e duradouros. Em seu percurso de crescimento, ele foi obrigado a atravessar várias crises internas – características dos ciclos de expansão da empresa – e também externas, provocadas por questões políticas, econômicas ou sociais alheias ao controle da organização.

De modo geral, as empresas familiares são mais ágeis e flexíveis que as organizações não familiares, sentem-se mais aptas a explorar nichos de mercado e superar dificuldades. Em uma pesquisa realizada pela PwC em todo o mundo, inclusive no Brasil, alguns líderes de organizações familiares afirmaram que a crise econômica representa uma oportunidade – pois eles conseguem se movimentar rapidamente para adquirir novos negócios e absorver concorrentes. No mesmo estudo, 50% das empresas brasileiras disseram que têm a habilidade de se reinventar a cada nova geração, em comparação com 47% das ouvidas no mundo.

A resiliência é parte do próprio legado da família empresária e um dos ingredientes mais importantes de seu sucesso. A organização consegue administrar bem a tensão entre os interesses da empresa e os da família, entre as forças da tradição e as da inovação. Na crise, antecipa-se aos acontecimentos e age proativamente, em vez de só reagir às situações. Ao mesmo tempo, entende a importância de preservar seus valores, o senso de dono e os fundamentos do negócio. As novas gerações promovem as mudanças de rumo necessárias, inspiradas na própria história do fundador, recuperando seu legado e entendendo como ele enfrentou as crises anteriores para seguir adiante. No DNA e nos valores da organização, está o segredo para avançar em novas direções e reconquistar o equilíbrio.

Essa força para vencer as dificuldades está também em algumas outras características importantes da empresa familiar. Consideradas a encarnação do “capital paciente”, essas organizações investem em mudanças e na expansão dos negócios, mas seu foco é o longo prazo, envolvendo as próximas gerações. É uma vantagem em relação às empresas de capital aberto, que precisam prestar contas de seus resultados a cada trimestre e maximizar o retorno para os acionistas rapidamente – o que, de certa forma, engessa a resposta à crise.

Por trás das decisões da família empresária, estão o amor e a união no eixo familiar, os resultados e a operação da empresa e a preservação do patrimônio para as próximas gerações.

As empresas familiares tendem também a proteger melhor seus talentos. Elas respondem com criatividade às pressões por reduzir despesas e evitam a todo custo cortar pessoal. Essa gratidão pelos profissionais que acompanharam a história da organização – muitas vezes vistos como uma extensão da própria família – é retribuída com um senso maior de lealdade e comprometimento da equipe.

Nas organizações familiares, a cadeia de comando é mais simples e menos burocrática. O relacionamento entre gestores e empregados é mais direto e baseado na confiança. As gerações mais jovens podem se envolver nos negócios cedo e conhecer o dia a dia e os desafios da empresa na prática. Isso evita descontinuidades de políticas, processos e estilos de gestão, ajuda a preservar os valores fundamentais da organização e permite que a empresa reaja de forma mais rápida a mudanças no ambiente de negócios para enfrentar crises.

Há também forte senso de responsabilidade e foco em preservar a integridade do nome da família, que ao longo de sua história estabeleceu laços fortes com a comunidade. Para manter seu prestígio e sua reputação, essas organizações têm grande preocupação com qualidade e serviço e buscam tomar decisões de investimento saudáveis, que respeitem a natureza.

Consideradas motores importantes do crescimento econômico ao longo da história, as empresas familiares atualmente respondem por algo em torno de 80% do PIB global. Por causa dessa influência no destino de parcela tão grande da população, entendemos que sua capacidade de empreender, inovar, crescer e se renovar representa uma lição a ser aprendida e um tema de discussão relevante não só dentro do ambiente corporativo, mas para toda a sociedade.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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