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Katia Vaskys: um novo olhar para a indústria de tecnologia

por:

Nairah Matsuoka

Nairah Matsuoka

Ao longo do mês de março, a HSM trará entrevistas exclusivas com lideranças femininas que estão redefinindo o futuro dos negócios. As conversas fazem parte da série “Futuro Feminino”, um especial sobre os desafios, trajetórias e aprendizados de algumas das principais executivas, inovadoras e empreendedoras do ecossistema de negócios local e internacional.

Após a conversa com a CMO do Netflix, Bozoma Saint John, e a CEO do PayPal no Brasil, Paula Paschoal, o especial traz Katia Vaskys, a primeira mulher a comandar as operações da IBM no Brasil. A executiva traz grandes insights sobre uma gestão que não perde de vista a necessidade de se praticar equidade em todos os setores. “Não dá pra pensar em soluções inovadoras para resolver questões e problemas da sociedade e das empresas se olharmos tudo a partir do mesmo ponto de vista.“, afirma.

Você protagoniza um marco na história da IBM no Brasil, se tornando a primeira mulher a comandar a empresa. O feito te torna também um modelo para as profissionais aspirantes a cargos de gestão. Qual o seu conselho para as mulheres que se inspiram na sua carreira?

Só tenho sentimentos muito positivos por estar nessa posição: sinto alegria, orgulho e muita vontade de dar ainda mais voz para todas as mulheres, estejam elas em cargos corporativos, na tecnologia, ou em outras posições. Estou muito honrada por ser a primeira mulher a liderar uma empresa centenária no país, onde diversidade e inclusão são caminhos essenciais para a inovação. Vivemos um momento em que construir um mundo mais igualitário é alicerce para que todos e todas possam alcançar seu potencial máximo.

Tenho recebido muitas mensagens de jovens mulheres desde que assumi o cargo. A minha nomeação despertou em cada uma delas um impulso para buscar novas possibilidades, trajetórias inéditas, em que é possível atingir lugares sonhados na carreira e na vida. O meu conselho para essas mulheres é: busquem redes de apoio, pessoas inspiradoras para caminharem juntas, que possam fortalecê-las e ajudá-las a realizar o que não conseguiriam sozinhas. Gosto de um provérbio africano que diz: “Para ir depressa, vá sozinho. Para ir longe, vá acompanhado”.

Outro conselho é para seguirem se desenvolvendo, sendo curiosas, aprendendo sobre suas áreas de atuação e áreas afins. O aprendizado traz a reboque componentes importantes como planejamento, raciocínio lógico, capacidade de síntese. Quando você decide aprender, precisa se programar, precisa ter um objetivo, saber o que quer alcançar com este aprendizado, e isso faz com que seus passos sejam mais disciplinados.

Sua biografia acumula mais de 25 anos de experiência técnica e de negócios na indústria de TI. Desde que ingressou na IBM, em 2010, você foi responsável pela criação da prática de Business Analytics & Optimization na unidade de Global Business Services, além de liderar o portfólio de Smarter Analytics. Gostaria de saber como foi construir sua trajetória em um universo dominado por homens e, mais, como foi inovar nesse ambiente?

Foi uma trajetória emocionante, com oportunidades e desafios. A minha escolha de graduação foi na área de humanas, eu sou uma comunicadora social, que sempre acreditou na relação entre as pessoas e no poder da comunicação. Mas, sempre fui extremamente curiosa, e para desenvolver meu trabalho nesta área tive que explorar recursos tecnológicos e isso foi gradualmente se tornando minha especialidade. No fundo, nunca deixei de acreditar no poder transformador das pessoas e da inovação nos negócios e na sociedade. Acredito que isso é a essência da tecnologia da informação.

Durante essa jornada, contei com a ajuda de mentores que me ajudaram superar os desafios profissionais e de aprendizado em um ambiente competitivo e por vezes não receptivo para mulheres.

Em resumo, quando penso em toda minha trajetória profissional, não planejei detalhadamente cada passo. Eu simplesmente trabalhei e construí: entreguei projetos, impactei o resultado de clientes, construí relacionamentos, isso foi me levando gradualmente a alcançar cargos de maior destaque e responsabilidade em todas as empresas onde atuei.

Ao ser contratada pela IBM em 2010, recebi o grande desafio de estruturar linhas de serviço e práticas que não existiam, mas tudo correu maravilhosamente bem porque recebi um ambiente aberto a inovar, líderes empreendedores, pessoas competentes e produtos de qualidade.

Diversidade e inclusão são bandeiras levadas a sério pela IBM. Você, inclusive, é sponsor executiva do time de diversidade e inclusão da organização. Quais políticas de equidade adotadas você considera bem sucedidas, podendo ser replicadas por outras empresas?

A IBM é uma companhia que sempre se importou com a diversidade e foi pioneira em iniciativas de inclusão. Nos EUA, em 1935, por exemplo, a empresa abriu a primeira escola de treinamento para mulheres. No ano de 1943, uma mulher ocupou o cargo de vice-presidente. Em 1946, em um ano em que os direitos civis para os negros ainda eram negados pelo governo norte-americano, foi a primeira empresa a contratar um vendedor negro. Aqui no Brasil, em 2004, a empresa adotou o programa Domestic Partner, iniciativa que oferece direitos aos casais homoafetivos de incluir companheiros de mesmo sexo no plano de saúde. Esta ação ocorreu antes mesmo da união estável homoafetiva ser reconhecida legalmente no país.

Atualmente, temos na IBM os BRG (Business Resource Groups) ou Grupo de afinidades, formados por funcionários voluntários. Acredito nesta prática. Eles debatem assuntos de interesse, compartilham experiências e dificuldades e criam ações para promover o respeito e para contribuírem para um ambiente mais diverso e inclusivo. Na IBM Brasil temos seis grupos que discutem e debatem a diversidade: Afro, Mulheres, LGBT, pessoas com deficiência, Cross Cultural e Worklife Integration.

Muitas das nossas iniciativas vêm da discussão com esses grupos, com os quais eu faço questão de conversar. Temos aqui, por exemplo, o programa de mentoria reversa que é basicamente promover encontros entre algum representante de um grupo de afinidade com líderes da empresa para que ele atue como mentor, ou seja, para que compartilhe suas experiências de vida e profissionais e fale sobre seus desafios. Acredito na escuta e que só ao ouvir as histórias pessoais, é que conseguimos ter a capacidade de refletir e de perceber a nossa responsabilidade como agentes de mudança para promover a inclusão e o respeito dentro da empresa.

No seu perfil no Linkedin, você faz questão de salientar que gosta de trabalhar com pessoas de perfis, experiências e formações distintas porque “ao dar voz a todos, fazemos descobertas fantásticas”. O que você acha que falta para que mais empresas tenham a percepção do valor da diversidade biográfica de seus funcionários?

Falta entender que só com a diversidade chegamos à inovação. Para inovar, precisamos querer aprender com o diferente para poder encontrar novas soluções para os problemas. As empresas precisam de novas formas de olhar, precisam ouvir seus funcionários diversos e despertar neles a curiosidade, a criatividade e o empreendedorismo.

Nesse momento em que vivemos, de aceleração da transformação digital das empresas, promover uma cultura ágil e inovadora é essencial e o papel dos líderes é ajudar a liberar a inovação orgânica, possibilitar isso com toda a diversidade e olhares de seus funcionários.

Vale falar também em inovação aberta. Não dá para acreditar que inovaremos só dentro das nossas empresas. A inovação também surge ao trabalharmos com um ecossistema diverso: com parceiros, com as startups, scaleups, desenvolvedores, universidades, centros de pesquisa etc.

A IBM vem defendendo fortemente o uso consciente da tecnologia com nuvem híbrida aberta e inteligência artificial. Como a empresa está tratando a questão do viés da IA a fim de evitar que haja prejuízo racial ou de gênero?

Partimos da premissa de que a inteligência artificial deve ser desenvolvida para respeitar a privacidade humana e ser imparcial e transparente. E acreditamos que a tecnologia não deve, de maneira nenhuma, promover discriminação. A IA é uma tecnologia promissora que pode nos ajudar a tornar o mundo mais inteligente e próspero, mas ela deve ser moldada desde o início por interesses e valores humanos.

Precisamos enfrentar de frente as questões críticas que a sociedade está fazendo em torno da confiança, responsabilidade e ética na tecnologia. E também garantir que as novas tecnologias coloquem as pessoas em primeiro lugar, que seus benefícios sejam sentidos de forma ampla em toda a sociedade.

Por exemplo, em 2020, deixamos de oferecer software de reconhecimento ou análise facial, e não toleramos o uso de qualquer tecnologia de reconhecimento facial oferecida por outros fornecedores, para vigilância em massa, perfil racial, violações de direitos humanos básicos ou qualquer propósito que não seja consistente com nossos valores. Também em 2020, a IBM foi uma das primeiras signatárias do Rome Call for AI Ethics, sobre a necessidade de a inteligência artificial se basear nos interesses e valores humanos. As máquinas e tecnologias que os humanos criam simplesmente refletem quem somos como pessoas e como sociedade. A inteligência artificial é treinada por humanos. Portanto, as questões críticas que precisamos enfrentar não são sobre algoritmos e sistemas tecnológicos, mas sobre pessoas.

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