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Como anda sua relação com o erro?

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Muito se fala sobre as maravilhas da inovação. Pouco, sobre todos os erros que, necessariamente, as antecedem. Em minha experiência profissional percebo que, na maior parte das companhias, os erros são normalmente evitados e até temidos. Criam-se times de inovação que são vistos como os “gastadores”, enquanto outros times cuidam das galinhas de ovos de ouro, que garantem o lucro e, consequentemente, o bônus de fim de ano a todos.

Na paralela do mundo corporativo clássico, há todo um ecossistema de start ups, universidades, aceleradoras, investidores anjos, hubs de inovação fazendo a gente acreditar que é muito mais divertido trabalhar lá. Ambientes nos quais todos vivem inspirados, tendo mais uma ideia, colocando a mão na massa para realizá-la, buscando investimentos para viabilizá-la, fazendo acontecer “o novo”. Por lá, não necessariamente há lucro nem bônus de fim de ano. Nem mesmo um plano de carreira estruturado que possibilite o desenvolvimento do potencial das equipes.

Como conciliar esses dois mundos que parecem tão distintos? Como aproximar o ecossistema inovador das grandes empresas? Como diz Alexandre Waclawosky, criador do podcast O Lado I e autor do livro “Invente seu lado I”, precisamos instigar os empreendedores corporativos, criar start ups dentro das organizações e dar o direito a que algumas dessas iniciativas de não darem certo.

Precisamos nos conciliar com a realidade do erro para, realmente, poder inovar. Como gestores, precisamos estar abertos aos riscos associados às novas ideias e a possibilidade de erros que elas contêm. Claro, assim como nas empresas ágeis, errar logo e aprender com isso. Ou, fatalmente morreremos apenas tentando. Não se trata de erros por incompetência, mas sim por “audácia” para criar algo realmente novo!

Assim como citei em meu último artigo, nunca a prática da ambidestria foi tão necessária. Fazemos a roda girar hoje enquanto projetamos o futuro simultaneamente. E que futuro é esse? Intuo que é o conectado aos novos comportamentos humanos. A partir daí, é necessário responder o que vai desejar o ser humano do futuro. Quais serão suas ambições, necessidades, desafios? E, mais importante, como a cultura e o propósito da empresa de hoje colaboram com esse futuro de forma genuína?

Destaco aqui que não falei em como o “produto” da empresa colabora com o futuro, mas a cultura e propósito da companhia. Isso porque é possível e preciso ser ousado ao se imaginar o futuro de uma empresa, inspirar-se não apenas nas tendências do segmento no qual atua, mas em algo maior, uma consciência mais ampla das transformações que estão ocorrendo na sociedade como um todo. Entender como o comportamento do seu cliente final [ ultimate client, como dizem os americanos] está realmente mudando e como atender às novas demandas.

No passado, empresas criavam outras empresas, apartadas do negócio para inovar, tentando dissociá-las da cultura original, criando um novo propósito. A maioria dessas tentativas falhou copiosamente. Hoje, ficou claro que é necessário ter o empreendedorismo e a inovação pulverizados em cada unidade de negócio. É necessário deixar que toda a organização seja contaminada pelo vírus da inovação [conceito contraintuitivo num momento de pandemia]. Assim novas ideias podem brotar e se desenvolver dentro da empresa, contribuindo inclusive para a evolução da sua própria cultura, por parte daqueles que mais a conhece: seus colaboradores.

Como diz Clayton M. Christensen, em Innovation Dilema, o profissional de inovação tem que ter perfil aberto ao ecossistema, fazer combinações, relacionar aspectos diferentes de problemas diversos. E esse profissional não deve estar restrito ao departamento de R&D ou grupo de inovação, mas sim estar nas linhas de frente, lidando com os problemas do dia a dia da operação, junto aos clientes, conectando as diferentes perspectivas dos desafios de cada mercado.  Como se diz no meu pernambuquês, o executivo inovador precisa estar sempre atento para ligar o “ com o cré”.

Aqui na NTT DATA Brasil [ apontada como uma das 10 empresas mais inovadoras do país pela revista Forbes], realizamos recentemente um “shark tank” para promover e desenvolver ideias de nossos colaboradores, focadas em nosso negócio e nos negócios de nossos clientes. O evento, com direito a notas cópias de dinheiro a ser distribuído entre os vencedores para “investirem”, permitiu a apresentação de inovações com alto potencial de impacto no dia a dia da operação, com insights de quem só está no gemba [ o local onde o trabalho é realmente realizado ] pode saber. Foi fantástico ver o brilho nos olhos dos apresentadores defendendo suas visões e manifestando o espírito empreendedor de cada um deles. A comunicação do evento e a empolgação de seus vencedores tem sido capaz de contagiar a empresa com o vírus da inovação.  

Outro aspecto importante da inovação é lembrar que, muitas vezes, inovar é copiar. Se pensarmos, todas as inovações de biotec [ que usam organismos vivos no desenvolvimento de novos produtos] imitam a maravilhosa e natural máquina humana. Complementam nossa capacidade, a ampliam, mas a inspiração, é a criação natural. Aqui surgem algumas das chamadas perigosas ambições do Homo Deus, descrito pelo Yuval Harari, no livro homônimo.  

Por fim e não menos importante: a inovação deve estar à serviço da ética, deve nos ajudar a ser uma humanidade melhor, mais inclusiva, igualitária e democrática. Por exemplo, a inteligência artificial, que muitas vezes correlaciona dados históricos, já escancarou o racismo estrutural quando cartões de crédito tiveram menores limites dado para mulheres [do que homens] ou foram negados para mais homens negros do que brancos. Isso precisa ser monitorado e evitado!

Que a humanidade, a tecnologia por ela criada inovem o mundo para melhor.

Ricardo Neves é CEO da NTT DATA no Brasil, consultoria global de negócios e TI do Grupo NTT

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